JOSÉ GERMANO DA CUNHA

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JOSÉ GERMANO DA CUNHA

Mensagem  Belar em Qui Jun 10 2010, 05:46



LEMBRAR UM FUNDANENSE DE EXCEPÇÃO
No centenário da morte de José Germano da Cunha (1839-1903)

Almeida Garrett proferiu, do alto da tribuna do hemiciclo parlamentar, um infamado discurso – por sinal uma das suas mais inspiradas intervenções públicas - no qual alertava para o perigo que significava o desprezo pela obra dos «nossos maiores». E com efeito, desatender ao ensinamento e exemplo daqueles que nos precederam na tarefa de engrandecer o nosso torrão de origem é renunciar a nós próprios, produto que somos de um percurso plurissecular.
Na passagem do centenário da morte de José Germano da Cunha - poeta, jornalista, ficcionista e historiador – cumpre-nos pois render preito a essa figura ímpar; reiterar pela voz das gerações presentes o justo tributo de gratidão e estima que continuam a merecer os serviços que prestou à cultura local. Para ele o Fundão foi, no dizer de Alfredo da Cunha, «mais do que um objecto de estudo e curiosidade», mas sobretudo «a preocupação constante do seu coração e da sua inteligência».
A ele deve esta cidade todo um património literário, já de si preciosíssimo, dada a sua amplitude; mas também um dos mais emblemáticos empreendimentos da vida social do Fundão, entre os finais do Séc. XIX e os meados do seguinte. Refiro-me obviamente ao Casino Fundanense que teve em José Germano o seu mais fervoroso impulsionador.
Durante décadas, o edifício foi o centro da cultura da vila: o fado, as récitas, o teatro, a revista, conferiram ao espaço uma notória dignidade. Mas décadas volvidas, soprando novos ventos e entrando outros tempos, foi-se esfumando essa aura inicial e o Casino passou a ser uma espécie de «elefante branco» do Fundão. A discussão em torno do fim a dar ao Casino, e da sua eventual aquisição pelo município arrastou-se durante anos, sem que se vislumbrasse qualquer solução.
Recentemente, cientes autarquia e accionistas de que urgia pôr cobro a tal impasse, a questão foi finalmente ultrapassada. O acordo que estabeleceu – precisamente no ano em que se celebram cem anos sobre a morte de José Germano - a constituição do direito de superfície por um período de cinquenta e um anos, resolve uma situação que os nossos antecessores não foram capazes de ultrapassar, enredados que estavam em estéreis e improfícuas discussões públicas Tal medida, vem afinal a significar a devolução do Casino à cultura e à Cidade.
Os projectos de reabilitação do imóvel irão ao encontro da identidade do mesmo, que aliás fora alvo, num passado recente, de desfigurações que afectaram o espaço interior original.

Parece-me pois que não se poderá prestar melhor homenagem a José Germano da Cunha do que reactivar a casa que ele, com o desvelo sabido, inventou e levantou. E com a edição da presente obra – o seu livro de estreia - sela-se com timbre de autenticidade o nosso reconhecimento, averbando assim à sua memória a certeza de que os méritos desse fundanense de excepção não se diluíram no transcurso dos anos.

Manuel Frexes
Presidente da Câmara Municipal do Fundão

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JOSÉ GERMANO DA CUNHA
OU EXORTAÇÃO DO FUNDADOR
DO CASINO FUNDANENSE

«Numa linda madrugada, ouviu-se ali para os lados do Terreiro de Baixo o chiar alegre de um carro de bois. Era o primeiro bloco de pedra para os alicerces do Casino. A essa hora matinal, estou em dizer que as duas únicas pessoas que em toda a vila estavam já bem espertas eram José Germano e... o ganhão».
Assim começava, segundo as palavras de Adolfo Portela, o Casino Fundanense, ano de 1896. Ou talvez não. O Casino terá começado um pouco antes; no momento em que José Germano da Cunha se abalançou obstinadamente em dotar o Fundão de uma entidade sócio-cultural bastante arrojada para o tempo: «Quando alguém, acaso, o surpreendia, enlevado, em meditação, com os seus olhos cegos em busca duma luz que ele não via, podia afoitadamente afirmar por esse tempo que ele não estava de forma alguma a trabalhar o fecho artístico dum soneto ou a solucionar porventura qualquer grave problema social. Não. O que ele estava a fazer, muito simplesmente, era este cálculo: - uma fachada de 20 metros de comprido, por 8 de alto, quantos portados pode abranger, sem ofender os preceitos da arquitectura? E foi assim, de linha em linha, de traço em traço, de pedra em pedra, que a planta do Casino se lhe criou no espírito».
Além de ser o fautor desse espaço, José Germano foi analogamente o fundador da Sociedade do Casino Fundanense, e primeiro administrador-financeiro da mesma. No uso de um espírito empreendedor deveras assinalável, ele conseguiu tornar possível o impensável: e a pequena vila do interior beirão ficou assim a ter o seu Casino. Não faltaram «Velhos do Restelo»; boa parte dos habitantes da localidade desconfiava da grandeza do empreendimento, mas José Germano porfiou em levar avante o seu propósito. Conglomerou alguns conterrâneos e fundou, em 1895, a respectiva «sociedade anonyma». E desabafava assim, passados três anos: «Isto por si já era difficil n’uma terra dilacerada por dissensões políticas. A construcção do edificio em tão pequeno espaço de tempo foi um verdadeiro milagre».
Escritor e poeta de mérito reconhecido, José Germano da Cunha já tinha dado muito ao Fundão; mas não descansou enquanto a vila de então não teve um espaço cultural condigno, já que o velho teatro municipal, situado no rés-do-chão do edifício camarário – que abriu pela última vez as portas ao público em 1898, com a apresentação da peça «Noiva do João» da autoria de Adolfo Portela - apresentava-se exíguo para o crescente número de interessados pela arte dramática do tempo.

Por tudo isso nos cumpre honrar a memória de José Germano da Cunha. Daí que estejamos associados à Câmara Municipal do Fundão nesta edição conjunta de «A Torre dos Namorados – Tradição Antiquíssima no Concelho do Fundão». O cidadão exemplar que foi José Germano da Cunha bem o merece.

«A Direcção» do Casino Fundanense

José Nabais Rapoula
Luís Gavinhos
Francisco Lino

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PRÓLOGO

A Torre dos Namorados, com o dizer da sua lenda suave, por onde perpassa um doce ruflar de asas, é ainda uma canção de amor em honra deste lindo retalho da pátria portuguesa.
Adolfo Portela, 1912.

Decorre perto de século e meio depois que José Germano da Cunha (1839-1903) - um dos mais notáveis vultos da literatura e historiografia fundanense - publicou «A Torre dos Namorados – Tradição Antiquíssima no Concelho do Fundão». Corre o ano de 1866. José Germano vai nos trinta e dois e tem atrás de si, desde os mais tenros tempos de infante, um já notável rol de textos publicados na imprensa regional e nacional. Há muito que a vista lhe fraqueja, mazela que, agudizando-se abruptamente, vale ao jovem o abandono dos estudos, em Lisboa, parecendo coarctar assim, na flor dos dezasseis anos, a carreira literária que o seu talento augurava.
Todavia, a força interior que o enformava não se comprazia com uma qualquer afectação dolente à atroz cilada armada por um destino amargamente caprichoso. À luz que os olhos negavam faz então corresponder a perseverança de um espírito invulgarmente luminoso.
A obra que agora se reedita é pois a primeira das suas façanhas livrescas, à qual se seguiram «Notícia referente à Santa Casa da Misericórdia do Fundão (1870), «A propósito da ‘Monographia de Castelo Branco’» (1891), «Apontamentos Para a História do Concelho do Fundão» (1892), «Photographias» (1893), «O Jornalismo do Distrito de Castelo Branco» (1893), «O Conselheiro de Estado José Silvestre Ribeiro» (1894), «O Fundão» (1898) e «Entre Sombras» (1903).
Se bem que os «Apontamentos» tendam a ser considerados, no quadro da sua produção literária, como verdadeiro opus magnum, a verdade é que - e sem que queiramos, pela nossa parte, estabelecer quaisquer paralelos valorativos - «A Torre do Namorados» representa no contexto da literatura regional um passo pioneiro da aliança romântica entre a tradição popular e o panejamento intencionalmente erudito transfundido para a letra redonda. De facto, o texto surge na esteira das «Lendas e Narrativas» de Herculano - vindas a lume em 1851 (com reedição de 1858) - , como no-lo confessa o próprio José Germano: « A leitura das Lendas e Narrativas do sr. Alexandre Herculano despertou em mim a ideia de escrever a tradição, que se segue, e que em breve se riscaria da memória dos homens como desaparecimento das poucas pedras que restam desse monumento (...)».
É sabido que o movimento romântico elegeu o período medieval como fonte inesgotável de inspiração. Aliás, para os românticos, a nação portuguesa autêntica era precisamente aquela que tinha sido gerada na longínqua Idade Média crendo que, na sua origem, estava um arcaico «espírito do povo», na esteira do volksgeist hegeliano. Nesta busca da identidade perdida, ou atraiçoada pelo centralismo emergente da formação do Estado português moderno (com D. João II), e mais ainda após a criação do estado absoluto (D. João V), se apostaram os nossos românticos, procurando nas reminiscências medievais presentes no imaginário popular razões para sustentarem a sua essência ancestral.
É pois neste contexto que se insere «A Torre dos Namorados». Apesar de tardio, trata-se de um produto tipicamente romântico de redenção da memória, em que o factor didáctico, tão caro também a essa escola, é uma presença constante. O «Preâmbulo Histórico» (que bem vistas as coisas se prolonga até ao terceiro capítulo da obra, momento em que a lenda propriamente dita se inicia) é um laborioso tentâmen de inserção temporal da narrativa, no qual o autor colige e deixa coexistir dados (ainda hoje) presentes na tradição oral, manifesta e deliciosamente fantásticos, com outros de averiguada verosimilhança. Parece-nos que é desta convivência que reza em grande parte a felicidade do volume, sendo todavia inquestionável que José Germano jamais descurou, à boa maneira romântica, o cultivo do contexto histórico. Permita-se-nos que, a título de mero exemplo, refiramos as considerações que tece em relação ao Fundão, mormente no que respeita à Quintã, cujo filão informativo – não poderia ser outro – fora o tomo dos Anais do Município1, concretamente a «memória» redigida pelo punho de seu pai, Daniel da Silva Pereira e Cunha (1804-1880), que fora presidente da Câmara do Fundão nos anos de 1843-1844 e 1858, escritor e advogado fundanense. Foi este que em primeira mão revelou que a desaparecida Fonte Nova era de «mergulho» ou seja, medieval, pelo menos, e se refere à famigerada casa com portado ogival (por lapso, decerto, Germano reproduz ‘oval’). O nosso autor faz acrescer à pena do seu progenitor a conclusão de que tal edifício servia de capela nos finais do séc. XVIII, mas que, no nosso entendimento, seria um elemento sobrevivente de um antigo edifício civil, provavelmente de carácter defensivo: uma casa-forte ou fortalitium. Seja como for, serve tal exemplo para aquilatarmos a preocupação de José Germano da Cunha – não importa para o caso se inteiramente satisfeita (e esta não pretende ser, além do mais, uma edição crítica) - de procurar munir-se da documentação então disponível para conferir consistência histórica a este seu notabilíssimo trabalho.
Depois de Germano, a lenda dos amorados mouriscos que fatidicamente disputam a mão da princesa moura despertou posterior interesse a investigadores e literatos: Adolfo Portela, Hipólito Raposo, José Monteiro, Lopes Dias, Maria Antonieta Garcia... Nós próprios, compendiando algumas lendas do Concelho do Fundão (2001), não resistimos a dar um cunho pessoal ao fecundo episódio, por sinal ainda hoje bem vivo nessa aldeia de encanto e mistério que actualmente se nomeia Quintas da Torre. Torre dos Namorados é, precisamente, um dos antigos topónimos da localidade, de presente anexa da Freguesia de Vale de Prazeres. A sua antiguidade, essa, nada tem de legendário. Ao invés, recua muitos séculos além da dominação muçulmana. A elevação castreja da Covilhã Velha (Serra das Cruzinhas ou Casinhas- um braço da Gardunha, afinal) que se precipita sobre a magra planície onde se semeia a esmo o casario da pitoresca aldeia, demarca os tempos proto-histórios dos da romanização. Estes, estão fartamente assinalados na Torre do Namorados, com um sobejo acervo de achados arqueológicos: três aras (uma delas dedicada a Júpiter), fracções de outras duas, um marco miliário, inscrições diversas, inúmeras mós manuais, sítulas de bronze, cerâmica vária (da qual avulta um fragmento de ânfora – ao que tudo indica pompeiana), fustes e capitéis de coluna, um dollium intacto, pesos de tear e de lagar... Tão farto é, enfim, o espólio, que apetece perguntar: - Torre dos Namorados, o que foste tu?
Território dos Igaeditani, mas chão eleito de antigos Taporos – populus lusitano citado por Plínio – o entendemos já nós, em recente proposta de releitura epigráfica2, mas e que mais? Um vicus, turris ou castellum (no entendimento de J. Candeias da Silva), ou uma grande villa romana? Dos tempos medievos restam alguns vestígios, como uma sepultura antropomórfica escavada na rocha e um ou outro testemunho avulso. A própria Covilhã Velha teria sido habitada até esse período.
O topónimo medieval teria sido Arrizado, Alcizado ou Torre do Arrizado. A documentação é pródiga em referências a este designativo ou equivalente: Arrisatti (1260), Torre do Arrizado (1266), S. Sebastião da Torre do Alcizado (1320), Torre e Vale do Arrizado (1505)...
A ascendência toponímica prende-se ao possessor destas terras, D. Arrizado, fidalgo covilhanense que viveu no reinado de D. Sancho II (1223-1248), de quem nos falam as Inquirições de D. Dinis (1314): «dom aRizado que era homem bom de couilhaam (...)».
Ao que tudo parece indicar tanto a «torre» como o «aqueduto» da lenda – as duas obras arquitectónicas que o «Alcaide» árabe incumbiu em desafio aos pretendentes da filha - não pertencerão apenas aos domínios do fabuloso, mau grado o pretendido período cronológico seja decididamente outro. Germano conta que o primeiro desses monumentos tinha, em 1855, «a altura de um segundo andar» estando ainda hirta no decurso do século XVIII, «muito alta e com seteiras». No Tombo da Comenda de Castelo Novo (1505) alude-se assim ao imóvel: «(...) huma meya torre descuberta, feita de canto lavrado, que se chama Torre do Arrizado, e darredor della huma cerca pequena de parede derribada per partes e muitos pardieiros que jaa em outro tempo foy grande edifício e moradia (...)». Seria pois um edifício militar. Medieval, evidentemente, mas não remontaria porventura a um torreão romano? Probabilidade apenas. Certo é que, de presente, no local onde presumivelmente existiu - qualquer habitante das Quintas da Torre conhece às cegas a sua localização - «Fonte Velha/Quinta do Couto» - abundam fragmentos cerâmicos de construção (de origem romana) e silhares. No que respeita ao segundo deles, se já José Germano tinha detectado «restos de um muito extenso aqueduto» ainda hoje surgem aqui e acolá blocos graníticos de canalização em grande cópia – que os populares insistem em relacionar com a construção da lenda... –, artefactos que pudemos apreciar in situ recentemente.
O local onde supostamente se teria dado a morte da donzela ficou também gravado na memória das populações e que, de resto, a própria toponímia absorveu: Mata da Rainha - uma das mais jovens freguesias do Concelho do Fundão (criada em 1976) mas cujo historial retrocede a um passado longínquo e também ele farto. Há memória de existirem aí vestígios pré-históricos, designadamente megalíticos, sendo consistentes as provas da romanização, cuja melhor expressão será um monumento epigráfico funerário depositado no Museu Arqueológico Municipal José Monteiro do Fundão (Epitáfio de Tapora).
São pois duas localidades vizinhas que se alentam num elemento comum: uma das mais coloridas lendas de toda a região, sabiamente aqui reproduzida por José Germano da Cunha.


J. Mendes Rosa

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