Padre Joaquim Guerra....

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Padre Joaquim Guerra....

Mensagem  Belar em Sex Abr 04 2008, 03:01


(Lavacolhos 1908 | Lisboa 1993

PADRE JOAQUIM GUERRA, S.J.

O missionário jesuíta, natural de Lavacolhos, estudou e traduziu várias obras clássicas de chinês para português. Chegou a produzir um dicionário para a língua lusa.

Comemora-se no presente ano o centenário do nascimento do Padre Joaquim Guerra, incontornável personalidade nos domínios da história das relações contemporâneas entre Portugal e a China.
Vindo ao mundo em Lavacolhos, freguesia fundanense que tem no xisto, na água e nas sonoridades telúricas o seu traço identitário, o Padre Joaquim Guerra quebrou e soube ultrapassar todas as fronteiras mais atávicas, redutoras e deterministas da existência.
Ao percorrermos as várias facetas que substanciaram a sua vida, afirma-se nelas toda uma intricada geografia do fazer, do sentir e do sonhar estruturada por caminhos, interrogações e por descobertas plurais.

Mais do que uma simples conjugação do local com o global, o jesuíta Joaquim Guerra desenvolveu e aprofundou de maneira sublime uma característica desde sempre associada à sua Ordem: o encontro com o Outro, com um respeito pleno pela diversidade e pelo desenvolvimento de um espírito ecuménico de partilha e de descoberta com e para com os complexos civilizacionais da humanidade.

São muito profundas e firmes as densidades espirituais e culturais que as suas volumosas obras nos transmitem. Gizadas durante décadas, elas resultaram de toda uma peculiar vida, que atravessou continentes em autêntica peregrinação continuada de missionação da fé, do saber, da descoberta e do estudo.

Mas foi a China e o seu mosaico histórico-cultural, foi este país de mistérios, de contradições, de contrastes e de interrogações, que este beirão abraçará o seu horizonte vivencial.

O Cristianismo e o Confusionismo estruturam cedo e de uma maneira equilibrada a sua trajectória intelectual que o relevará, durante anos, como um dos mais reputados sinólogos mundiais. Somos devedores a este jesuíta da divulgação para a língua de Camões de algumas das traves mestras do pensamento e da ancestral literatura chinesas, realidades culturais que se reproduzem mantendo-se assim bem viva a memória deste unificador–tradutor de mundos e de línguas geograficamente tão distantes.



Falarmos hoje do Padre Joaquim Guerra e da sua obra é também lermos e recordarmos o século XX e as suas terríveis oposições. Oposições que este beirão viveu e ultrapassou como um profeta das gentes, dos seus temores e das suas esperanças. Daí que parte do seu pensamento assuma e transmita grande contemporaneidade e premente actualidade. Que a comemoração do centenário deste ‘apóstolo ecuménico’, seja então uma autêntica ponte de vida e de saber entre o ocidente o oriente e que faça emergir um tempo de Paz e de verdadeira concórdia entre todos.


Resta-me, enquanto Presidente do Município do Fundão, agradecer a todas as pessoas e instituições que desenvolveram esta parceria e que contribuíram para o êxito destas celebrações, nomeadamente Sua Excelência Reverendíssima o Bispo da Diocese da Guarda, D. Manuel Felício, a Ordem dos Jesuítas, na pessoa do Sr. Padre Henrique Rios dos Santos, a Universidade da Beira Interior, na pessoa do Presidente do Centro de Estudos Sociais Sr. Professor Doutor José Carlos Venâncio, e, principalmente, o Dr. Jorge Baptista Bruxo que resgatou a magnífica e ainda tão desconhecida obra deste nosso estimado conterrâneo cujo centenário de nascimento nos encontramos a celebrar.


Manuel Joaquim Barata Frexes
Presidente do Município do Fundão

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UMAS PALAVRAS DE CIRCUNSTÂNCIA

A Portugal deve-se o descobrimento, em 1498, do caminho marítimo para a Índia. Um feito, sem dúvida, importante na história da humanidade. O mundo deixou, desde então, de ser o mesmo e o país e os portugueses tiraram proveito do feito. Desempenharam, pelo menos até meados do século XVII, até à tomada de Malaca pelos holandeses, um papel central no comércio com o Extremo Oriente. Haviam-se estabelecido entretanto em Macau, que se transforma, com essa presença e acção, num importante ponto de confluência do comércio exercido entre a Europa, a China e o Japão. A par deste comércio, dos interesses económicos, políticos e militares, outros de natureza religiosa e cultural foram igualmente cuidados. Lembremo-nos, para tanto, de nomes como os de D. Francisco Xavier, Luís de Camões, João de Barros e Fernão Mendes Pinto, legando-nos este uma das peças fundadoras do que poderá considerar-se como “Orientalismo na versão portuguesa”. Digo “na versão portuguesa”, porque não se assistiu em Portugal, mesmo com o pioneirismo na aproximação a novos mundos e com o conhecimento dessas e doutras realidades não europeias, à constituição de um saber estruturado, sistemático, de cariz erudito, não imediatista portanto, sobre o Oriente. Nunca se constituiu em Portugal um sentido de Orientalismo como aquele que está subjacente ao conceito sobre o qual incide o olhar crítico de Edward Said, baseado sobretudo nas experiências francesa e britânica.
Não obstante esta constatação, portugueses houve que deram o que tinham de melhor para um conhecimento mais profundo de tais sociedades. O Pe. Joaquim Guerra foi um deles. Mesmo que, por vezes, polémica, a sua obra científica (não falo da missionária) merece toda a consideração por parte do mundo académico. E mais. Para além do investigador, o Pe. Joaquim Guerra foi também um escritor de mérito, nomeadamente no livro Condenado à morte (cf. a 2.ª Parte da presente antologia). Ousaria até considerá-lo, a esse respeito, um Fernão Mendes Pinto dos tempos recentes, razão que, por si só, justificaria a homenagem que ora se lhe presta por referência ao centenário do seu nascimento.
O organizador do presente “auto-retrato”, Jorge Bruxo, também ele beirão da Beira Baixa é, à sua maneira e dimensão, outro nome a reter nestes domínios do conhecimento e da experiência portuguesa no mundo. A ele o nosso Bem-Haja pela ideia da comemoração e pelo trabalho que aqui apresenta e ao Município do Fundão, na pessoa do seu Presidente Dr. Manuel Frexes, pelo acolhimento do projecto.


Covilhã, 28 de Março de 2008

José Carlos Venâncio
Universidade da Beira Interior

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INTRODUÇÃO

Assinalando o centenário do nascimento do Padre Joaquim Angélico de Jesus Guerra), em boa hora a Câmara Municipal do Fundão resolveu editar uma selecta de textos deste seu ilustre munícipe que, um pouco por todo o Mundo, espalhou os nomes de Lavacolhos, sua Terra Mátria, e do Fundão, sua Circunscrição Municipal, e fez isto com a sua vida e obra,de forma constante e incansável. Vida em que sobressai o missionário-mártir, o sinólogo, o professor, e o autor de outros escritos, que revelam um estilo fluente e de uma limpidez cristalina, só possível por quem domine a língua de Camões, como ele sabia fazê-lo. Mas legou-nos também escritos em inglês e em chinês, línguas que bem conhecia, além de outras em que também sabia comunicar fluentemente, como o espanhol e o francês. E, naturalmente, era igualmente conhecedor do latim, à época indispensável às práticas do culto da religião católica, porque as celebrações litúrgicas em que tinha de oficiar decorriam, quase inteiramente, nessa língua.
A selecção dos textos para a selecta, ou analecta, se preferimos um termo de melhor sabor confuciano para os ocidentais algo versados em orientalismo, obedeceu a um denominador comum, que foi o facto de serem reveladores da personalidade do homenageado, um molho de alguns dos seus textos autobiográficos, vocacionados para ajudarem à compreensão da vida do Padre Joaquim Guerra e susceptíveis de levar ao conhecimento das actuais gerações alguns traços de uma personalidade que deve ser motivo de orgulho para os seus conterrâneos e mais alargadamente para os seus compatriotas.
Naturalmente que a presente publicação poderia ser organizada em obediência a outros critérios, como ser uma miscelânea integradora de todas ou da maioria das vertentes dos seus escritos, o que, evidentemente na perspectiva do organizador, não seria compaginável com a dimensão previamente prevista para esta selecta e teria de levar à inclusão de textos de compreensão geralmente não fácil para quem não tenha algumas luzes sobre Sinologia, nomeadamente no âmbito dos Clássicos Chineses e da Linguística aplicada à língua chinesa. Mas a presente publicação também se ressente das limitações decorrentes em parte de o organizador ser apenas uma pessoa, parecendo a este que melhor seria se fosse antes um grupo de trabalho, e por outro lado a imposição de ter de ser concluída em cerca de 30 dias para cumprir o objectivo de poder ser lançada ao público, por ocasião das comemorações do centenário do nascimento, em Abril próximo, do Padre Joaquim Guerra.
Qualquer personalidade é sempre multifacetada, mas em geral não de forma tão marcada como acontece no caso do Padre Joaquim Guerra, pois se desmultiplicou em múltiplos papéis, algumas vezes assumidos em simultaneidade. Por exemplo podemos claramente vê-lo em pessoa de arreigada pertença a duas antípodas nacionalidades: a portuguesa e a chinesa. E acresce, que sem nunca renegar a sua fé católica, se afirma e reafirma como um medular confuciano, parecendo que a doutrina de Kong Fu Zi lhe foi, como a qualquer chinês, quase cromossomaticamente transmitida. Não é por acaso que procura demonstrar que a mensagem de Confúcio tem matizes proto-cristãs, que o confucionismo, tanto no plano teórico, como no plano prático, é um verdadeiro advento do Evangelho e cria terreno espiritual propício para que o sonho de São Francisco Xavier, relativamente à cristianização da China, se venha a concretizar. E o mesmo acontece com as múltiplas comparações que faz entre acontecimentos bíblicos e episódios da História da China, como por exemplo situando no mesmo tempo histórico o Dilúvio da Arca de Noé e as Grandes Inundações registadas pela tradição chinesa como um fenómeno pluvioso de proporções tais, que nunca houve igual neste Oriente Extremo, nem antes, nem depois da respectiva ocorrência.
A presente colectânea compreende quatro partes, além de uma introdução prévia e da adição de uma sumária nota cronológica e de uma relação das principais obras literárias do Padre Joaquim Guerra.
A primeira parte da colectânea, que intitulei Autobiografia Breve, é uma tradução de um texto inglês, constante da introdução do livro The Book of Songs – Sundry Texts from James Legge, translation Revised, editado em Hong-Kong, em 1986. A tradução, da exclusiva responsabilidade do organizador, foi feita ao correr da pena, devido às naturais limitações de tempo para o efeito. A opção por este texto parece-me óbvia, dado o desiderato pretendido com esta publicação.
O texto seleccionado é antecedido, na introdução referida, de uma também breve biografia de James Legge (1815-1897), com a finalidade de evidenciar as estranhas similaridades existentes na vida dos dois missionários e sinólogos, separados por cerca de um século, mas prosseguindo os mesmos objectivos essenciais, de certa forma sugerindo que o Padre Joaquim Guerra é um continuador e aperfeiçoador da tradução dos Clássicos Chineses, efectuada por Legge. O Padre Joaquim Guerra autodescreve-se como um terceiro do seu conhecimento pessoal, e, por isso, a narrativa não carece de outros apoios, que não seja a própria memória.
A Parte II consta de textos extraídos exclusivamente da obra Condenado à Morte, sendo os títulos dos capítulos e também dessa parte da responsabilidade do organizador da selecta.
A Parte III engloba alguns textos escritos pelo Padre Joaquim Guerra, não destinados a serem publicados, eventualmente relatos para terceiras pessoas. Também aqui as epígrafes dos capítulos e da própria parte não são do autor, mas do organizador.
A Parte IV aglutina textos dispersos por vários livros e artigos, sob a denominação comum de Miscelânea, porque provenientes de vários contextos, embora tenham em comum o facto de conterem traços biográficos do próprio autor que deste modo, da mesma forma que nos textos das demais anteriores partes e ainda noutros que aqui se não reproduzem, esquiça o seu auto-retrato.
Como é do conhecimento geral a escrita chinesa não é, ainda hoje, original e basicamente alfabética, sendo a respectiva alfabetização um verdadeiro processo de interpretação e transcrição. E existem diversos sistemas para esse efeito, sendo um deles o que foi inventado, sustentado e divulgado pelo Padre Joaquim Guerra. Nas transcrições utilizaremos invariavelmente a redacção adaptada pelo autor do texto. Quando porém for o organizador a escrever segue, em regra, o sistema pinym. A imensa China tem várias línguas, diversificadas na oralidade, mas unitárias na escrita e descobrir um sistema alfabético uno na grafia e pluriforme na fonologia, foi o objectivo a que se propôs o Padre Joaquim Guerra. O seu sistema alfabético para o Chinês parece ter sido admirado, mas nunca devidamente testado, e muito menos oficialmente até agora porque nunca, por razões óbvias, seria apoiado pelos então poderes políticos vigentes na República Popular da China.
A terminar agradeço a inestimável colaboração prestada por minha filha Bárbara Sofia e pelo meu amigo Daniel Gomes.

Macau, 8 de Março de 2008

Jorge Baptista Bruxo

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Textos extraídos do livro "Auto retrato do Padre Joaquim Guerra — Antologia de Textos" com selecção, organização e notas de Jorge Batista Bruxo, editado pela Câmara Municipal do Fundão.
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Palestra sobre a vida e obra do Padre Guerra....

Mensagem  Belar em Ter Abr 15 2008, 03:21

O Padre Henrique Rios faz uma palestra sobre a vida e obra do Padre Guerra, no Centro de Convívio, em Lavacolhos.









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